“O Exorcista” e “Legião”, de William Peter Blatty

Em tempos de quarentena, tenho criado uma série de programas de leitura e estudos, tanto para enfrentar a melancolia como também para colocar as leituras em dia e minimizar os efeitos desse isolamento prolongado. Acho fundamental não perdermos a capacidade de ler, escrever, dialogar, estudar e planejar, sobretudo para informar nossa sensibilidade de que em algum momento, ao menos em partes, as coisas voltarão ao normal. Como adoro terror – e há um novo projeto de romance chegando – decidi mergulhar no universo literário e cinematográfico (nessa ordem) do norte-americano William Peter Blatty (1928-2017).

Tenho sentimentos dúbios quanto ao filme O Exorcista, de 1973, dirigido por William Friedkin e protagonizado por Linda Blair e Max von Sydow, apesar de inegavelmente ser um marco do terror e do cinema. Agora… o romance de Blatty é um acontecimento. Igualando suspense policial, poesia existencial e atmosfera incomparável, é uma das grandes leituras desse 2020. Além disso, a HarperCollins Brasil lançou uma edição primorosa. Bom revisitar esse clássico depois de tantos anos e ir atrás dos filmes. Nesse caso… muito medo… no bom e no mau sentido.

Falo disso porque O Exorcista de 1973 é um acontecimento cinematográfico e um filme de qualidades estéticas impressionantes. Já O Exorcista 2 – O Herege (Dir. John Booman, 1977) é um desastre horripilante e uma mácula na biografia de todos os envolvidos, sobretudo do fenomenal Richard Burton. Já os filmes posteriores – vou pular mas já chego no terceiro da franquia – O Exorcista O Início (Renny Harlin, 2005) e Domínio Prequel de O Exorcista (Paul Schrader, 2005) são intragáveis por seu suspense frouxo, sua premissa caótica e seus bastidores desastrosos – ambos são duas versões diferentes para a mesma premissa, em mais prova do quanto a interferência excessiva de estúdios no trabalho criativo de diretores nunca é um bom sinal. Nesse caso falamos da Morgan Greek, a detentora dos direitos dos personagens. E por falar nela…

Em 1983, Blatty publicou Legião, não uma continuação e sim uma história de suspense e horror psicológico e espiritual ambiente no mesmo universo de “O Exorcista”. Nela, o autor dava continuidade ao percurso do investigador da obra anterior, William Kinderman. Destaco aqui outra versão soberba do romance, dessa vez aos cuidados da DarkSide Books, que sempre arrasa nas suas edições. O próprio Blatty dirigiu a adaptação cinematográfica em 1990 com mão firme e estética muito bem desenvolvida. Porém, por pressão da Morgan Greek que exigiu que o filme se chamasse O Exorcista 3 e não “Legião”, o final foi alterado com uma cena de possessão inserida no ato final quebrando com impagável horror gore a elegância da produção, ficando bem mais distante do original de 1973 do que poderíamos imaginar.

Finalizo aqui apenas dividindo minha suspeita quanto ao efeito que tanto os romances quanto o filme de 1990 tiveram sobre outro monstro do cinema: Hannibal Lecter. A meu ver, a linguagem de Thomas Harris em Red Dragon (1981) muito deve à atmosfera e à qualidade das frases de Blatty. As descrições do trabalho dedutivo e imaginativo de Will Graham lembram em muito algumas das melhores frases do autor de O Exorcista, sobretudo no uso de metáforas algo improváveis para detalhar os estados de espírito de seus personagens. Curiosamente, um ano depois de Exorcista 3, Jonathan Demme utilizaria muitos dos recursos visuais do filme de 1990 – também ambientado em um hospital psiquiátrico – para dramatizar o encontro de Clarice e Hannibal em O Silêncio dos Inocentes, talvez o maior suspense de todos os tempos – ao menos, até a presente data.

Há um abismo entre a linguagem chula, o comportamento exagerado e as excreções verdes que o demônio Pazuzu adora e a elegância corpórea, a sutileza discursiva e a precisão culinária de Hannibal. Por outro lado, talvez exista uma conexão entre eles na perfeição narrativa de seus criadores – Blatty e Harris – e no apuro visual de seus diretores – Blatty e Demme. Tirando o final esdrúxulo de “O Exorcista 3”, culpa dos produtores, não do diretor, tanto Blatty quanto Demme evidenciam com grande classe que no suspense e no terror, mostrar menos significa assustar mais.

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